
Escritor talentoso, casado com uma bela mulher, sem problemas com dinheiro (sua mãe lhe deixou uma boa herança), vivendo entre a Lapa e Santa Teresa, casa dos artistas e berço da boemia no Rio de Janeiro. Essa é a vida que todo homem pediu a Deus. Certo? Não. Não para Zeca (Caio Blat). Vivendo a crise dos trinta, o cara não consegue terminar seu romance sobre um açougueiro que vira artista, ao ganhar uma câmera fotográfica. A trama caminha para um clima noir, mas ele quer desenvolver questões existenciais, que envolvem um diálogo entre vida e arte. O problema é que ele senta em frente ao computador e nada acontece. Na maioria das vezes, nem um linha é escrita. Só lhe resta fumar e trepar. Mas Júlia (Maria Ribeiro), sua esposa, é muito dedicada aos estudos e não tem o mesmo tempo livre que Zeca, pois, além de ser professora, está tentando uma bolsa para fazer seu doutorado em Paris. Zeca fica cada vez mais frustrado, sem conseguir um momento de felicidade sequer. Seu estilo de vida é duramente criticado não só por Júlia, mas, principalmente, por seu pai (Daniel Dantas), que administra suas finanças. “Você é um cara talentosíssimo, de trinta anos, que se comporta como um adolescente. Quando você vai amadurecer“? Este é o questionamento que esbarra na acomodação de uma pessoa que não sabe o que fazer de sua vida, em um momento chave.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos é um filme sobre o quase. Zeca é um quase escritor. E, assim como ele, existem milhões de talentos escondidos, que, na maioria dos casos, nunca floresce. Consequentemente, estes quase artistas permanecem no limbo do anonimato, e suas quase obras primas não são conhecidas, nem admiradas, pelo mundo. Confesso que me identifiquei com várias das questões existenciais que envolvem a quase epopeia urbana de Zeca (olha minha crise dos trinta chegando) e o filme me fez refletir muito. Como diretor, este é o primeiro longa de Paulo Halm, conhecido roteirista do cinema nacional (Pequeno Dicionário Amoroso, Mauá – O Imperador e o Rei, Amores Possíveis, Achados e Perdidos, entre outros). Paulo já começa em altíssimo nível, oferecendo um filme maravilhoso, intimista, melancólico, denso, profundo, coeso, questionador e extremamente provocador (sim, eu gosto de usar adjetivos em minhas resenhas). O roteiro é fantástico e, implicitamente, faz referência a uma das maiores obras da literatura brasileira. Zeca é uma espécie de Dom Casmurro pós moderno, não nas características do personagem, mas na forma como lida com a suspeita de que sua mulher poderia o estar traindo. Assim como no livro de Machado de Assis, em nenhum momento é comprovado que a traição existe na realidade. O intuito é deixar o espectador interpretar se há algo real, ou se é tudo imaginação neurótica do protagonista. Quando Carol (Luz Cipriota), a melhor amiga de Júlia, entra na vida do casal, dúbios sentimentos passam a habitar a alma de Zeca. O carinho e a sensualidade à flor da pele das amigas é que fazem nascer o conflito do anti herói. Ele passa a acreditar piamente que elas têm um caso. Pausa para um comentário extra filme: não sabia que a Maria Ribeiro é tão… gostosa (não encontrei adjetivo melhor). A argentina Luz Cipriota (que aprendeu português exclusivamente para atuar no filme) também não fica nem um pouco atrás. Mas o conflito só tende a ficar mais complexo, pois Zeca se apaixona por Carol e a formação de um triângulo amoroso é iminente. Zeca, Júlia e Carol exalam sensualidade. Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos é um filme recheado de erotismo, mas sem, em momento algum, cair na vulgaridade. As cenas de sexo são belíssimas e de extremo bom gosto. Uma delas, surpreendentemente, é a cena mais engraçada do longa, quando Zeca demonstra o quanto está de quatro (literalmente) por Carol. As atuações do trio de protagonistas e do coadjuvante Daniel Dantas são irretocáveis. Ainda estamos no primeiro trimestre, mas este, com certeza, é um forte candidato a melhor filme nacional do ano. Por Mattheus Rocha