Moda de Deus
Por Thiago Tognozzi
E aê! Vô logo dizendo que já contabilizo cinco filmes que vi e tem uma cara “Cidade de Deus”. Seis anos depois da estréia, Fernando Meirelles influencia outras produções. Pessoalmente, digo que está na hora de rever a fórmula. Não digo já estejam saturadas. Acredito que histórias que se passam em favelas precisam ser reinventadas. Este é o desafio que quase o filme “Era uma vez…”, conseguiu cumprir cemporcento.
“Cyrano Fernandes” do diretor venezuelano Alberto Arvelo é a história do Robin Hood numa favela, misturado a um trágico triângulo amoroso. Não saí da sala impactado, mas durante o filme foi possível ver fotografias bastante criativas e inusitadas da favela. Crianças soltando pipas criam imagens incríveis com ângulos loucos. A montagem, juntamente com o roteiro, dão uma boa levada para o filme. Mas não sei. Minha humilde opinião é que o roteiro tem falhas de narrativa, além de me parecer fraca no uso da fórmula. Nada grave, mas poderia ser melhor. As atuações são interessantes, Edgar Ramirez, que já vi em outras fitas de Hollywood, está legal no papel do protagonista, o Clark Kent da favela.
Interessante notar, além de uma influência clara a “Cidade de Deus”, no começo o filme tem uma pegada de “Traffic”. De resto, fica claro pra mim que é um filme feito para vender tanto na Venezuela, como no comércio exterior. Ouvi a um tempo atrás que o cinema venezuelano cresce bastante. Não assisti outro filme de lá, mas acho que devem existir produções mais instigantes que “Cyrano Fernandes”, que é um filme que cumpre seu papel, mas não brilha.
“Cyrano Fernandes” apenas nos mostra que, definitivamente, existe um mundo de fúria e brutalidade por aí. Estamos definitivamente vivendo uma sociedade cujo sistema mostrou-se ineficaz. A miséria existe por nossa incoerente competitividade de ser um maior que o outro. Isso não existe. Somos pessoas iguais. Lembrando do filme “O presente da Pachamama”, me vem à cabeça uma cena do filme, em que o pai deixa de comprar fios de uma vendedora, porque não tem dinheiro. Apenas troca seu sal por outros alimentos. Não mexe com dinheiro. Algumas cenas antes, ainda na jornada, ele dá plantas que colheu pelo caminho num rio, boas para febre, para uma mãe que segura seu bebê febril, em frente de casa. Ele troca com a Terra, com Pachamama aquilo que colheu dela. Não vende, não economiza. Ele vive o agora, mas um agora em que tudo que ele precisa está na terra. É o presente da Pachamama, a vida. Quando os caminhões chegarem a esse povoados distantes, trarão consigo televisores, aparelhos de DVD, churrasqueiras elétricas, computadores, celulares e também conceitos de status e poder. A troca não existirá mais de forma natural, ela passará por um processo monetário… Esses filmes só mostram que há algo errado no meio dessas equações, que juntam um povo que vive bem e distante das garras de nossa sociedade e das pessoas que vivem dentro das grandes cidades.
Amanhã vou conferir algo das antigas, “Rio 40 graus”, que passa no CineSESC da Augusta, sábado, 18 horas. Também neste 11 de julho, o diretor Nelson Pereira dos Santos dará a aula magna do Festival Latino Americano, às 15 horas, no Anexo dos Congressistas no Memorial da América Latina.
Inté!