Presentes da Terra
Hola hermanos!
Hoje assisti a dois filmes interessantes. Um se encaixa facilmente no que chamamos ontem, no debate sobre internacionalização de nosso cinema, de “filme com qualidade”. O outro tem alguns tropeços, mas também pode ser considerado um bom filme. No fim das contas, me questiono o que seria exatamente um “cinema de qualidade”.
O filme boliviano “El Regalo de la Pachamama”, definitivamente prende a atenção pela história se passar em terras surreais e por uma fotografia sedutora. Perto da casa do pré adolescente Kunturi tem um rio de sal, onde seu pai trabalha todos os dias. Perto, no caso, é uns 10 quilômetros, pelo menos. A casa em que ele vive com a família não tem luz elétrica. A avó semeia a Quinoa, a mãe costura as roupas com os próprios fios que teceu. O avô cuida das lhamas que acompanharão pai e filho por uma viagem de três meses. O sal que o pai de Kunturi coleta será trocado por mantimentos em povoados distantes, onde caminhões não chegam pelo difícil acesso. Esta viagem é como um rito de passagem para o garoto. Kunturi floresce pronto para dar continuidade à vida, como toda natureza em que está conectado. Mas já desponta a sua volta um mundo novo que tenta encobrir essa natureza. A montagem deste filme é lenta, o que pode não agradar aos agitados. Mas no caso, a lentidão coloca o espectador no ritmo de vida daquelas pessoas, que vivem em outro tempo. Os atores têm alguns breves momentos de genialidade. Alguns, como os avós do menino e os demais aldeões, parecem ter sido selecionados naquelas bandas. O roteiro tem momentos confusos, mesmo assim, a história e a fotografia garantem que “O presente da Pachamama”, de Toshifumi Matsushita seja um filme respeitável.
Na seqüência, conferi o também colombiano “1989”, escrito, dirigido e produzido por Camilo Matiz. O filme tem uma levada dum cinema mais jovem. A fotografia também é extremamente bem cuidada, um roteiro peculiar e uma montagem competente. Fiquei com a pulga atrás da orelha ao sair do cinema. É novidade! Não é pra menos que o filme esteve em Cannes antes de vir aqui pro Festival. De forma bastante sutil, Matiz aborda sobre a violência. Com roteiro escrito em espanhol e filmado em Bogotá, o filme é falado em inglês. “Fiz diversos testes com atores colombianos e não conseguia um ator que fizesse o exato personagem que eu tinha na cabeça, por isso quando vi a possibilidade com Vincent Gallo, deixei o filme falado em inglês, na língua dele”, diz o diretor. Vale ressaltar a boa atuação de Gallo. “1989” é praticamente um monólogo. “Por isso, desde o início pensei na fotografia que entretêm o espectador”, diz Matiz. As câmeras foram uma preocupação à parte. Ele disse que usou uma Fanton, porque ela faz mil quadros por segundo e é leve, fácil de manejar. “Por causa desses equipamentos, tivemos de usar inúmeros refletores para que a luz fosse a mesma em todo o tempo de filmagem”, acrescenta. Quando for assistir ao filme, pense que a cena final, na verdade, dura só 3 segundos. É realmente fantástica, porque a câmera se movimenta durante toda a cena.
De ambos os filmes, as conclusões técnicas que chego é que, um bom filme seduz. Seja na história, seja com a fotografia, ou com atores, enfim, ele tem que seduzir o espectador. As mensagens que tiro é que nós, seres humanos, habitamos um imenso e surreal planeta que pulsa vida, que está em nós. Mas nossa ganância em querer mais nos degenera. Não estamos dando atenção, mas como em “1989”, nossa história pode ser subitamente interrompida por causa de nossos atos.
Para esta sexta-feira 10, resolvi cair pra assistir o venezuelano “Cyrano Fernandez”, às 19 horas na sala 1 do Memorial. Quero ver mais um pouco dos trabalhos de nossos hermanos. Bora pra lá?
Então, daqui a pouco eu volto. Besos mi queridos!