Sobre a internacionalização de nosso cinema

Por Thiago Tognozzi

Os pipocos de “Cidade de Deus” voaram para longe. Isso, trouxe uma onda pros surfistas cinematográficos brazucahs. Trouxe a real possibilidade de trabalhar com o mercado exterior. Na época do lançamento deste filme de Fernando Meirelles,  os produtores internacionais pediam mais produtos semelhantes a “Cidade de Deus”. O filme era febre no mercado de cinema. Nos festivais que se seguiram, filmes muito semelhantes surgiam, assinados por diretores e equipes de outros países. Esse sucesso abriu o mercado internacional para os profissionais do cinema brasileiro. Mas o desafio também aumentou. Hoje se preza ao máximo na qualidade do produto final. Histórias boas, belas imagens, atuações convincentes, áudio de primeira qualidade, montagem com ritmo… Mas no fundo, pra mim fica a seguinte conclusão: é mais fácil você fazer cinema para exportação do que para seu próprio País. Um lobby muito forte domina 90% do mercado cinematográfico. Desanimador? Muito pelo contrário. Cada vez mais, com nosso contingente de profissionais aumentando e a qualidade também crescente, um grande mercado será aberto. Já está sendo aberto, aliás.

No debate sobre “Cinema da América Latina e Internacionalização”, Hermes Leal, editor da “Revista de Cinema”, mediou uma troca de idéias bastante produtiva com o diretor Heitor Dhalia, a produtora Zita Carvalhosa e o diretor do filme “1989” (que está na programação do festival), Camilo Matiz.

Zita salientou logo de início que o cinema brasileiro diminuiu seu lado tão autoral e abriu-se um pouco mais para a produção. A produção lapida melhor a obra, segundo a produtora. Já Heitor Dhalia complementou que a expressão do autor deve ser respeitada, mas que isso não deve comprometer a qualidade do filme. Conclusão: um bom filme deve ter suas características particulares e autorais, mas deve-se ser também ligado com o público e o trabalho deve manter-se aberto para opiniões que vem dos colegas de equipe. A qualidade é o grande objetivo a se mirar, pois o mercado cinematográfico internacional pede por isso.

O mercado internacional realmente pede por filmes brasileiros, mas o clichê não precisa sempre aparecer. “Passamos tempo demais fazendo filmes que tinham que parecer brasileiros”, disse Zita. O caso de “1989” demonstra muito bem como hoje vivemos em uma aldeia global e por isso, mesmo nos internacionalizando, podemos manter nossa identidade original. Filmado na Colômbia, o filme é falado em inglês. “´Criei uma história que na verdade é passada em qualquer lugar, não importa a língua”, diz o diretor que esteve em Cannes e recebeu boas críticas pela película. “1989”, segundo ele, causou mais polêmica por ter apenas 48 minutos. Mas ele disse que é o tamanho da história e não teria motivo para “colocar mais 10 minutos”.

Qualidade, personagens que criem identidade com o espectador, criatividade. E o mercado mundial está aí, crescendo e cada vez mais aceitando trabalhos brasileiros. Só que sempre se bate na tecla de que precisamos nos preocupar em criar um espaço maior do nosso cinema aqui em nosso País. Na França e na Coréia, há uma lei que reserva um espaço obrigatório para o cinema local. Hermes Leal disse que essas leis aumentaram o numero de espectadores nos filmes produzidos localmente. O mercado interno destes países cresceram, além de continuarem a exportar seus melhores produtos para o mundo.

Mas cinema, aqui, é mercado ou é arte? Depende. Necessariamente nem todos os filmes brasileiros que vendem bem no exterior seguem o estilo de “Cidade de Deus”. Muitas vezes, filmes nacionais que chamamos de arte, não fazem sucesso aqui quando estréiam. Vão ao exterior, recebem boas críticas e aí quando voltam sim, fazem seu merecido sucesso de público. Estranho até pensar que o cinema argentino acaba tendo até mais espaço aqui no Brasil que os nossos filmes. Por que? Talvez por receio dos exibidores em não conseguirem faturar o suficiente, ou mesmo porque a televisão ainda não passa nossos filmes com o glamour que passa os estrangeiros, ou talvez seja cultural. O que é certeza é que existe uma briga de mercado, mas dia após dia abrem-se novas portas para os realizadores brasileiros. Ao que parece, estamos no caminho certo. Precisamos aprender mais e amadurecer nossos conceitos. Mas realmente parecemos estar no caminho certo para um mercado cinematográfico para exportação.

Então, você, jovem, que já completou 18 anos, e já tem sua pequenina produtora, saiba que é possível você alavancar sua obra prima. O “Programa Cinema do Brasil”, do SIAESP (Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo) abre as portas para que você mande bala na produção de sua idéia. Acho que vale a pena conferir.

Aí, vô nessa que amanhã tem mais!

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